Opinião

Toalhas ao gramado, leia a crônica do professor Edson Krusser

11/03/2020 08:38
 

Trato de como se produzir museus de memória, estátuas e bustos de heróis, que perecem em lutas, cujas resistências se fazem mais escritas do que cinzas.

Falo de estendermos nossas toalhas ao gramado das praças, levarmos nosso chimarrão para uma conversa conceitual acerca da precariedade que se passa no entorno de nossas efêmeras vidas e discutirmos historietas contadas com verbos em tempos ambíguos, como esta:

Pois, era uma vez em um mundo irônico (qual não é?), onde uma bússola sem agulha apontava para o sul de outro não muito desconhecido. Onde as fábulas com animais representativos (independente do “calibre” de suas orelhas), eram mais aplaudidas do que sua distópica realidade seminua e crua-meio-sapecada.

A hierarquia era mantida (no grito). O Pseudo tinha a missão de comandar com mãos contraditórias de nióbio-pouco-flexível. Estava sempre rodeado de lobos (seus assessores mais próximos). Muitas graúnas (parentes daqueles pássaros que estão sempre prontos a habitar a casa abandonada do João-de-barro). Muitas hienas (aquelas que fumam Vila Rica e espreitam os restos alimentares do capital).

Seus proletários, ainda não terceirizados, eram formiguinhas assalariadas trabalhadeiras-noite-e-dia e abelhinhas coletoras de néctar nem tão desagrotoxicado assim.

Dos tetos dos aposentos de quem ousa insurgir-se, pende uma estratégica abertura, donde caem rações e água que respinga nos azulejos frios de suas rabiscadas paredes. As portas são ornadas com ferrolhos externos.

Por parte da cúpula (as rapinas que voam à jato) do reino agonizante, um dos passatempos preferidos era coletar as penas das Corujas-pó-de-giz (em processo de extinção) que trabalham em locais compartidos, sem direito de rebelarem-se cruzando as asinhas. Para elas a ração era tipo meia-tigela em suaves colheradas, pois parece que alegadamente comem “em comum”, quase todo requeijão daquele mundo.

Dizem os do topo que alguém tem que fazer dieta cultural para os outros engordarem. Aos falcões: a polpa. Aos Camarões-parcos: restos, soros, bagaços e cascas.

Dizem os da periferia que o fedor obscurantista vem lá de dentro. A cada quatro anos eles resurgem, com hálito perfumado, disfarçando carnes putrefatas entre os caninos das próteses. Babando entre os sorrisos e promessas. Fortalecidos pelas negociatas, urdidas no escuro, atrás de seus poleiros e púlpitos para Vips.

Agora eles distribuem fartas emendas, obtidas desde a venda de seus votos. Recompram prestígio e apoio, mostrando uma mão generosa e escondendo no bolso opulento a outra que traiu. As feridas já foram abertas e surgem com antissépticos milagrosos, borrifados e assoprados pelos próprios beiços. Eles são tão bonzinhos e prestativos!

Muitos são filhos e netos da repressão que ainda amordaça nossas vozes com a ameaça revanchista e que ainda torcem o nariz para as verdades dos que pensam diferente.

Resta-nos lutar contra a conivência com a deseducação, contra as impossibilidades que causam a fome dos invisibilizados, contra a desesperança dos desvalidos, contra a agressão que necrosa os inseguros, nem que seja satirizando o absurdo.

Agora, os cordeirinhos correm desordenadamente, separam-se e misturam-se, ora em um grupo, ora em outro. Em todos, os heróis acabam devorados. E o ciclo fabuloso, mutante e virulento, continua...

- Corre, corre e berra cordeirinho!

Esta é uma parte da minha historieta... E a sua?

Abraços e até breve!

Prof. Edison Krusser
*Mestre e Doutorando em Educação pela
Universidade de Santa Cruz do Sul – UNISC.
E-mail: earank@farrapo.com.br

Farrapo




Topo