Opinião

Professor Edison Krusser escreve crônica sobre - As professoras

Por farrapo.rs
05/12/2019 09:34
 

Sou do tempo que, como aluno, o que mais adorava era estar em aula. Primeiro por ser um “querido” da professora, sem falsa modéstia, nos completávamos, éramos unha e carne, pão e “figada”, quadro e giz. Coisas de aluno e professora. Segundo que, para guri de campanha, a junção de colegas era a opção de parceria para brincar no descampado em frente à escola multisseriada. Durante o recreio jogávamos futebol com uma bola de borracha que, quando nos pegava de jeito, deixava tatuada a palavra “Mercur” em nossa tenra pele. A professora Juraci era a deusa na terra.

Em outro tempo não tão distante daquele, quando a diretora Nair entrava na sala de aula, todos levantavam e ficavam inertes a escutar suas palavras de carinhosa ordem. Não era medo, era uma respeitosa e diária homenagem que prestávamos àquela representante dos mais elevados padrões docentes.

Não é só saudosismo do tempo em que os alunos respeitavam suas professoras e a sociedade acreditava que seus filhos estavam em um ambiente que os levaria com sucesso ao futuro prometido.

Trouxe estas lembranças para falar de RESPEITO. Nestes tempos em que as escolas buscam proteção atrás dos muros que não deixam sair, mas que principalmente não deixam “estranhos” entrarem.  Tempos em que os professores são agredidos pelos alunos e/ou familiares, ou pior. Lógico, são exceções, mas que se tornam recorrentes a passos largos. É claro que há muito amor e cumplicidade em nosso meio. Muito profissionalismo e dedicação.

O que é lamentável, por outro lado, é que o sofrimento do professor não se restrinja somente às questões afetivas com seus alunos, quando, por exemplo, constatamos ao final do período letivo que alguns terão que repetir o ano, por não terem alcançado os objetivos traçados. Sentimo-nos doloridos com tais decisões. Repensamos nossa práxis. Reinventados, vamos em frente.

O outro sofrimento de que articularei é aquele que emerge do descaso com a valorização da existência docente. Embora não seja exatamente meu lugar de fala, pois não sou professor estadual, o que vejo em meus “colegas de lá”, é de que foram alçados ao patamar de mais importantes funcionários públicos de todos os poderes.

Serão eles que, abrindo mão de seus planos de carreira, desde conquistas históricas e inquestionáveis, constituirão a mais nova categoria de assalariados a preço pífio e fixo. Quando eles um dia porventura não precisarem mais pagar para receber, terão talvez por sua conta, resolvido as contas de todos. Sim! Sentir-se-ão os salvadores para um problema multiplicado por muitos e que almeja uma solução dividida entre poucos.

As metáforas anunciam a educação como salvadora. Eis aqui uma hilária ironia que nos atravessa. Sim, vivemos época de sacrifícios, mas precisamos conversar mais sobre isso, antes que tais ideias capturem e contaminem outras instâncias. Sejamos resistência, em nome da esperança de dias mais educados.

E, convenhamos, agora sinto um RESPEITO ainda mais nostálgico pela professora que me observava jogando no descampado...
   
Abraços e até breve!

Prof. Edison Krusser
*Mestre e Doutorando em Educação pela Universidade de Santa Cruz do Sul – UNISC.

E-mail: earank@farrapo.com.br


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