Opinião

O homem traído - confira o artigo de José Heitor Fonseca

22/08/2019 10:17
 

José Heitor Madrid Fonseca Escritor

José Heitor Madrid Fonseca ou José Heitor Fonseca, como é conhecido, nasceu dia 14 de Setembro de 1964, em Caçapava do Sul. É filho de Heitor Mozart Fonseca e Maria Ibraima Madrid Fonseca. O escritor, poeta, cordelista, letrista (Letras de músicas), entre outras atividades, é membro da AGPC – Academia Gaúcha dos Poetas de Cordel. Foi candidato a vereador na sua cidade por duas vezes, em: 2004 e 2016. Tem participado de diversas Antologias com outros autores. José Heitor Fonseca já publicou 13 obras. Um dos seus poemas, O Bandoneon Ficou Mudo virou letra de música pelo Grupo Cambonaço, de Caçapava do Sul.

Era domingo. De banho tomado, coloquei a melhor roupa, me perfumei com aroma dos bons - e encilhei meu pingo para assistir um fandango. Na mente trazia um único pensamento: dançar até o dia clarear. Talvez arranjasse uma companheira, mas parecia estar de azar neste quesito. Sempre soube dançar bem e não era dos mais feios do local. O sol começava a se esconder por trás do horizonte e o fandango era longe.

Mal anoiteceu, montei no cavalo e saí a galope estrada a fora. Calculava, comigo mesmo, que ia chegar antes das oito horas, senão fosse o inusitado. Meu tordilho era bom de patas, e noutra época cheguei até apostar carreira com ele. E sem querer me gabar sempre ganhei a corrida.

Olhei o céu estrelado, lua minguante. A escuridão cegava minha visão. No trajeto, ouvi um barulho estranho, o cavalo quis recuar e senti um frio na espinha. Coisa que nunca havia sentido. Meu cabelo arrepiou, notei que não estava sozinho. Açoitei o tordilho com meu rebenque para que andasse mais depressa. Ele se assustou e corcoveando me jogou no chão. Por azar caí numa poça d’água, sujando minha roupa de lama. Levantei a ponto de surrar ainda mais o cavalo pelo o acontecido, mas me deparei com um estouro. Santo Deus, minhas pernas tremiam como vara verde ao sabor do vento. Não sabia se corria, se dava volta ou se prosseguia. A essas alturas o meu tordilho fugiu assustado me deixando só na noite escura. Tomei coragem para perguntar quem estava ali, mas não obtive resposta. O jeito era voltar para casa a pé, porém sabia que estava muito longe. O cavalo sumiu e não tinha como procurar no meio da escuridão. A vegetação da beira da estrada se mexia como se alguém estivesse pisando nela. Perguntei mais uma vez se tinha alguém ali, mas nada. No meu peito o coração batia acelerado. Cheguei a sentir a presença da morte vindo: um infarto, um ataque cardíaco. Tudo pelo medo.

Animado com o baile, esqueci de pegar uma lanterna. Pensei em tudo, menos nisso. Que desgraça! Eu não sabia nem as horas. O tempo passando, e eu ali. Meu pensamento de dançar não era mais importante. Queria voltar para casa, no entanto alguma coisa me paralisava. Minhas pernas permaneciam imóveis, sem ação. Por onde andava meu tordilho? Ele sempre foi manso. O que tinha acontecido para fugir dessa maneira? Sentei no barranco da estrada. À minha volta nada se avistava. O céu sim, povoado de estrelas como uma cidade iluminada. Senti um vulto passar por trás de mim, meu corpo parecia ter levado um choque elétrico.

Quando acordei, o sol brilhava no céu. Olhei para um lado e avistei meu tordilho pastando. Minha bombacha suja de lama. O que aconteceu? Perdi o baile?

Montei no cavalo e segui para casa. Não ia contar nada para ninguém, porque nunca fui medroso. Quando meu primo viu minha bombacha suja me perguntou se o homem traído tinha me derrubado do tordilho. Só aí,  fiquei sabendo do homem traído pela mulher que se enforcou por aquelas bandas.

José Heitor Fonseca

Farrapo




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