Opinião

Leia a crônica de José Heitor Fonseca, A mulher na vidraça

Por farrapo.rs
03/08/2019 11:37
 

José Heitor Madrid Fonseca Escritor

José Heitor Madrid Fonseca ou José Heitor Fonseca, como é conhecido, nasceu dia 14 de Setembro de 1964, em Caçapava do Sul. É filho de Heitor Mozart Fonseca e Maria Ibraima Madrid Fonseca. O escritor, poeta, cordelista, letrista (Letras de músicas), entre outras atividades, é membro da AGPC – Academia Gaúcha dos Poetas de Cordel. Foi candidato a vereador na sua cidade por duas vezes, em: 2004 e 2016. Tem participado de diversas Antologias com outros autores. José Heitor Fonseca já publicou 13 obras. Um dos seus poemas, O Bandoneon Ficou Mudo virou letra de música pelo Grupo Cambonaço, de Caçapava do Sul.

Matilde espiava a rua pela vidraça da janela. Rosto enrugado pelo passar dos anos e dos sacrifícios da vida. Ia fazer oitenta e dois anos no mês de setembro. Tinha três filhos casados que viviam suas vidas.

Ela, após enviuvar ficou sozinha em sua casa. Uma das filhas havia prometido cuidá-la, mas a pobre mãe esquecida não via a promessa se cumprir. Observava pela janela as crianças dos vizinhos brincando. Na rua deserta, sem automóveis circulando, permitia que elas pudessem brincar sem serem incomodadas. Lembrava dos filhos. Seu olhar turvo parecia ver um deles chegando para abraçá-la. Por trás do vidro transparente visualizava as pessoas que passavam na rua: um homem gorducho andava apressadamente pela calçada. Uma sacola com produtos do supermercado na mão direita. A bola atingiu suas pernas roliças. O mover dos seus lábios demonstrava sua indignação com um dos menino que lançou o chute. Os olhos atentos de Matilde como de quem espera, não se desviavam da rua.

Lembrou o tempo que era jovem. O marido saía para o trabalho e ela cuidava dos três. Tempo bom aquele, a melhor época da sua vida. O esposo trabalhava de zelador em uma escola municipal.   E ela cuidava da casa, dos filhos. Era material escolar, roupa limpa, tudo ao seu tempo e hora. Nunca deixou faltar nada para eles, embora fosse pobre. Eles foram crescendo, casaram, tiveram seus próprios filhos. (E por pensar nisso, nem os seus netos vinham para vê-la).

O seu marido aposentou-se do trabalho e viviam uma vida sossegada naquele lar humilde. Certo dia, saiu para ir ao mercado comprar frutas, entre outras coisas, e não voltou. Quando regressava, sentiu forte dor no peito. O médico atestou infarto fulminante. Ela ficou sozinha recebendo um pensão.

Ainda contemplava a rua, era seu aniversário. Podia ser que arrumassem um tempinho para vê-la. Sentiu um aperto no peito. As crianças jogando bola na rua, mas nada dos filhos chegarem. Eram ocupados. A mão enrugada e trêmula limpa uma lágrima do rosto. As pernas foram afrouxando, as vistas escurecendo, o aperto no peito. Caiu no chão frio esperando os filhos.

José Heitor Fonseca


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