Economia

Confira dicas para fugir da armadilha do cheque especial

Por Jornal O Sul
18/06/2019 10:10
 

Foto: Reprodução/EBC

A crise econômica puniu os maus hábitos de uso de crédito dos brasileiros, e hoje, grande parte da população está endividada. Segundo dados da Serasa Experience, o número de brasileiros inadimplentes bateu recorde em abril, chegando a 63,2 milhões de pessoas. Com isso, 40,4% da população adulta do país está com dívidas atrasadas e negativadas. Entre os vilões desses brasileiros estão diversas modalidades de crédito, como o cartão de crédito e financiamento do carro, mas nenhum tem juros tão explosivos quanto o cheque especial — 323,3% ao ano.

Segundo estudos do Banco Central, é a população de mais baixa renda a que está mais presa com essa modalidade de crédito, com 44% dos usuários tendo renda de até dois salários mínimos. Os resultados também mostram que 19,5% do total de usuários de 2018 utilizaram o cheque especial em todos os doze meses do ano. E que mais de 50% tomaram esse crédito por mais de seis meses.

A verdade é que é muito fácil entrar no cheque especial, e bastante difícil sair sem disciplina. Diferente de outras modalidades de crédito, não há regulação no limite que pode ser ofertado ao consumidor, ficando a cargo dos bancos escolherem — que muitas vezes liberam um valor muito acima da renda mensal do cliente.

Nessa conjuntura, o novo presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, disse em entrevista ao jornal Valor Econômico que o cheque especial é responsável por 10% dos resultados de crédito dos bancos, e que está analisando alternativas para baixar os juros da modalidade. A Federação Brasileira de Bancos não quis comentar.

“O cheque especial é para ser a última opção, mas é usado com frequência. Um em cada quatro usuários do aplicativo usou neste ano. A população precisa de educação financeira”, diz Julio Duram, diretor de produto e tecnologia do Guiabolso.

Thiago Lombardi, Gerente superior de logística de 34 anos, caiu na armadilha do cheque especial e viu como é importante ter um melhor controle financeiro:

“Uma complicação médica gerou gastos inesperados, e sem reservas, recorri ao cheque especial, acreditando que conseguiria pagar rapidamente diminuindo os gastos. Mas a verdade é que com os altos juros eu fui me enrolando. Comecei negativo em R$ 500 e em seis meses já estava em R$ 6.500. Meu salário caía e o banco já tirava para pagar o limite, e eu precisa usar de novo para pagar as contas. Até que estourei o cheque especial e fiquei inadimplente. Só então fui buscar renegociar as dívidas em melhores condições com um crédito com garantia. Hoje vejo a importância de planejar gastos, ter disciplina e poupar para emergências.”


Bancos mudaram cobrança em 2018

Em julho de 2018, o Banco Central mudou a regulação para a cobrança do cheque especial. Depois de usado 15% do limite disponível por 30 dias, o banco passa a oferecer uma alternativa mais barata para parcelar essa dívida.

Segundo a FEBRABAN, muitos devedores tem trocado a dívida do rotativo do cheque especial para um modelo parcelado com juros menores. Desde julho do ano passado, mais de 9,55 milhões de clientes reduziram as taxas pagas por meio da migração. Somente em abril mais de 1,11 milhão de pessoas migraram, reduzindo a taxa média de juros paga de 12,31% a.m. para 3,21% a.m., de acordo com levantamento feito pela federação com 12 bancos, que representam cerca de 90% do mercado brasileiro do produto.

No entanto, esses resultados não são sentidos pela média de juros calculados pelo próprio Banco Central, em que a taxa ficou estável.

“Não mudou nada. O cliente é estimulado a ser inadimplente e depois o banco não faz nenhum esforço para a pessoa sair dessa situação”, diz Samir Reis, gerente de crédito da Fintech de crédito Bcredi.

Para Filipe Pires, coordenador do MBA em Finanças do Ibmec RJ, o cheque especial é uma das principais fontes de crédito das classes mais baixas, por ser fácil conseguir a linha. e por isso, seria preciso sim tentar repensar o modelo de crédito.

“Qualquer pessoa com conta corrente pode ter de imediato, sem restrição de renda. Isso torna o risco alto, o que justificam os juros altos. E assim, quem paga compensa os inadimplentes. E com o aumento da inadimplência no país, o risco fica maior para o banco. Em alguns países é cobrada uma tarifa para o uso de créditos emergenciais, que tira um pouco do risco e , assim, diminuiu os juros. A ideia é que isso restringe o uso para casos emergenciais. Mas não é possível saber se inibiria a tomada do crédito por aqui. E também poderia aumentar o custo total. É preciso regular, mas também educar as pessoas.”


Por Jornal O Sul

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